Contaminação por rickettsias é uma das principais causas de infecções severas
- Ana Mancim
- 10 de ago. de 2016
- 4 min de leitura
Pessoas e animais infectados pelas bactérias, diagnosticados e tratados incorretamente, podem chegar a óbito, alerta veterinário.
Há mais de 18 anos estudando a ação das bactérias do grupo das rickettsias (Ehrlichia, Mycoplasma, Babesia, entre outras) nos organismos animais e humanos, o médico veterinário José Luiz Peres Moraes alerta sobre a falta de diagnósticos corretos, tanto clínicos quanto laboratoriais, que indiquem a presença destes microrganismos, e a proliferação de infecções severas.
Através de exames de DNA e outros mais simples como o esfregaço sanguíneo, o veterinário concluiu que as rickettsias, na maioria dos casos, podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de doenças humanas graves como lúpus, câncer e leucemia, além de hemorragias como AVC (Acidente Vascular Cerebral), infarto, hematúria (urina com sangue), pneumonias severas, vasculite cerebral, dores de cabeça parecidas com enxaqueca, cirrose, insuficiência renal, problemas oftálmicos, entre outras.
De acordo com Moraes, alguns veterinários e médicos da saúde humana, ao tratar pacientes com quadros de infecções, não consideram a presença de rickettsias em exames laboratoriais, e consequentemente podem errar ao dar o diagnóstico final.
"Antes de um diagnóstico final ser dado para pacientes que apresentem quadros de infecções, o médico e o veterinário devem avaliar a presença de rickettsias no exame laboratorial. Avaliar também o histórico de vida do paciente, se ele convive com animais, se pegou carrapato, se fez caminhadas em áreas verdes. Porém na prática não é isso que acontece. Estes profissionais não têm o hábito ou não foram treinados para enxergar tais bactérias nestes exames, e podem partir para um diagnóstico de "virose", por exemplo. O mesmo vale para animais que mudam de comportamento ou apresentam algum tipo de infecção. Mas qual microrganismo vem causando tais sintomas? Se for feito um esfregaço sanguíneo é possível identificar rickettsias", contesta.
Outro agravante detectado pelo veterinário é a presença de ratos em esgotos de vias públicas e residências. Ele explica que o roedor é um reservatório de rickettsias. As pulgas e os carrapatos deste animal migram facilmente para os animais domésticos, desencadeando a contaminação. "Os principais reservatórios de rickettsias são os ratos e as capivaras, porém os ratos estão presentes nas ruas das cidades, nos esgotos das casas ou até mesmo dentro de residências. Os carrapatos e as pulgas do rato migram facilmente para os animais domésticos. Uma simples caminhada em ruas onde este roedor está presente também pode desencadear um processo de contaminação. A pulga pula do rato para o animal doméstico e até mesmo em nossas pernas. Ela pica e transmite facilmente as bactérias. Por isso devemos sempre fazer uso de repelentes de boa qualidade e nunca dormir com animais".

Além da picada de insetos sugadores de sangue como carrapatos, pulgas e pernilongos, a transfusão de sangue contaminado também é considerada uma forma de transmissão da doença. "A transfusão sanguínea também é outro fator importante de transmissão, pois não são feitos testes nos sangues doados que indiquem a presença de rickettsias", explica Moraes.
Ambiente ideal
Moraes aconselha o uso de venenos que combatam a proliferação destes insetos sugadores, tanto nas residências quanto no corpo dos animais, aplicação diária de repelentes de boa qualidade, além dos cuidados básicos de saúde. "Esta é uma doença ambiental, portanto o ambiente deve ser controlado e pulverizado com venenos específicos frequentemente. Os animais representam somente 5% do esforço e o ambiente 95%. Quando dormimos com nossos animais de estimação ficamos mais susceptíveis a tomarmos uma picada. Um animal de estimação não passa a doença só pelo contato com a saliva e secreções, ao lamber o dono, por exemplo. Mas a pulga ou carrapato ao picar o dono deste animal, com certeza irá transmitir bactérias. Por isso o uso diário de repelentes, a aplicação periódica de venenos nas residências e nos animais são fundamentais para prevenir a proliferação destes insetos".
Tratamento
Além do uso de repelentes e do diagnóstico correto, o tratamento deve começar antes que a doença progrida. Nos testes realizados pelo veterinário, para cada bactéria do grupo das rickettsias, um tipo de antibiótico específico ou uma associação foram utilizados. "Não se deve tratar doenças severas por deduções e sim identificar a causa. Uma vez que um indivíduo está com rickettsia seu sistema imune é capaz de impedir uma nova infecção, mas é incapaz de eliminá-la totalmente. Os antibióticos são importantes porque ajudam e dão tempo para o organismo se defender, criando resistência. Uma ou mais bactérias do grupo podem atuar juntas em um mesmo organismo. Mas os casos se diferenciam de paciente para paciente, e deve-se utilizar antibióticos específicos que atuam diretamente na bactéria causadora do problema. Por isso considero uma doença atípica. Doenças silenciosas são tartadas com prevenção!".
Sobre o autor e o estudo
José Luiz Peres Moraes é médico veterinário formado pela UNIFENAS, Minas Gerais, com iniciação científica na UNAERP de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. É proprietário da Clínica veterinária STA INEZ, em Mococa (SP).
Os testes que compõem o estudo foram realizados a partir de exames de PCR (Polymerase Chain Reaction), método de amplificação de DNA sem o uso de um organismo vivo, na UNAERP, e método de May-Grunwald-Giemsa, técnica de coloração de esfregaço sanguíneo com lâminas de sangue fresco e fotografadas na UNIFAL em Alfenas (MG). O estudo foi realizado com cachorros errantes, animais de estimação, cavalos de carrocinha, seres humanos, cavalos e vacas de Mococa e região.
Resultados
Foram realizados 473 esfregaços sanguíneos no total, entre abril de 1998 e dezembro de 2008. A distribuição dos esfregaços sanguíneos por espécie foi:
- Caninos: 302 (63,8%)
- Humanos: 70 (14,8%)
- Equinos: 40 (8,5%)
- Bovinos: 20 (4,3%)
- Felinos: 20 (4,2%)
- Roedores: 18 (4,394%)
- Ovinos: 2 (0,004%)
- Caprinos: 1 (0,002%)